quarta-feira, 6 de novembro de 2013

PELA PROFISSÃO DE MESTRE DE CAPOEIRA - MESTRE GAVIÃO - FEDERAÇÃO RIOGRANDENSE DE CAPOEIRA

A  Capoeira é do Brasil!

A capoeira surge como fruto e consequência da luta travada pelos escravos pela sua libertação. Os negros vindo da África não aceitaram em nenhum momento  o cativeiro, e já nos rituais religiosos praticavam “dança” de ritmo frenético, ao som de palmas e instrumentos de percussão. A movimentação eram coreografias de gestos rápidos e precisos cheias de saltos e ginga de extraordinária flexibilidade e agilidade. Dali pode ter surgido a possibilidade de, para escaparem de seus feitores, aliar sua destreza de movimentos a golpes de lutas africanas trazidas por eles e com o passar do tempo incorporando novas movimentações, desenvolvendo assim uma “técnica” de defesa e ataque surpreendentemente inovadora. Nascia a Capoeira!!!
Era o século XVII e a luta foi desenvolvida para os escravos enfrentarem as capturas violentas e cruéis dos chamados Capitães do Mato. Os confrontos aconteciam em geral nas Capoeiras(local de mato ralo). E assim veio a expressão para os escorraçados algozes: “ Ele nos pegaram na capoeira”. E Capoeira ficou!!!  
Em 1821, a capoeiragem já era violentamente repremida. Sua prática ficou sujeita a castigos corporais e a medidas não menos punitivas. O Governo republicano, instaurado em 1889, deu continuidade  a  política de repressão e associou diretamente a Capoeira a criminalidade, como consta no decreto 847 de 11 outubro de 1890, com o titulo “ Dos Vadios e Capoeiras”.
O Artigo 402, dizia:  “ Fazer nas ruas ou praças públicas exercícios de destreza corporal, conhecidos pela denominação de capoeiragem:  Pena de seis meses a dois anos de reclusão.
E o parágrafo único do mesmo artigo aprofundava: “ É considerada  circunstância agravante pertencer o capoeira, a alguma banda ou Malta. Aos  chefes ou cabeças, impor-se-á a pena em dobro.
Mas como vimos a Capoeira resistiu a isso. Enfrentou terríveis e negativas vicissitudes e sobreviveu.  Reagiu e  contemporâneizou-se.  Reconstruiu-se enquanto prática esportiva forte e foi reconhecida no século XX pelo então Presidente da República: Getúlio Vargas como “Único e verdadeiro esporte genuinamente nacional”. Assim saiu da criminalidade e ganhou as academias e voltou às ruas.
Evidentemente que como tudo que tem origem na cultura afro descendente sofreu e ainda sofre descriminação e preconceito. Divisão e divergências interna.  Existem em seu seio várias concepções que insistem em recuar ao passado a pretexto de preservar a tradição. Contudo ela avança. Hoje mobiliza em sua prática bem mais de seis milhões de brasileiros e brasileiras que a despeito das polêmicas marginais a utilizam, em boa parte, profissionalmente.
Está em curso no Congresso Nacional, tramitando um Projeto de Lei que busca consolidar sua prática profissional, salvaguardar sua tradição, impedir a ingerência indevida  de terceiros e acima de tudo garantir sua prática plural e contestadora.
O PL em questão precisa, com base no Art. 217 da Constituição Federal, nos termos do art. 216 da mesma constituição que a considera bem de natureza imaterial e de formação da identidade cultural brasileira, garantir, assim com diz os Estatutos da Igualdade Racial,  que atividade de capoeira seja  reconhecida em todas as modalidades em que se manifesta, seja como esporte, luta, dança, música ou cultura afro-brasileira. Sendo absolutamente livre seu exercício em todo o território nacional. E facultar, por fim, seu ensino nas instituições públicas e privadas pelos capoeiristas e mestres tradicionais, pública e formalmente reconhecidos.
Está em pleno andamento a mobilização para o III Congresso Nacional Unitario de Capoeira que será realizado em São Paulo nos dias 10,11 e 12 onde se espera que os mais de mil delegados presentes unifiquem seu entendimento em torno das bandeiras e do PL que fortalece a prática.
 A Capoeira é um poderoso instrumento de inclusão social. Se bem orientada, pode, em sua multifacetada prática, dar uma enorme contribuição para a melhoria de condição de vida do nosso povo. A luta é o habitat da Capoeira e dos seus praticantes e com ela comemoraremos os mais de três séculos de sua existência, resgatando seu valor histórico, cultural, social, político e econômico. A Capoeira é Brasil!

Jairo Junior.
Pesquisador da Cultura Afro.
Consultor de Políticas Públicas.

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